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Uma fábula de sangue

As fábulas não foram feitas para crianças. Elas mostram o que de mais sombrio habita no coração dos homens

"Faça o digo e voltará para a sua casa"

No filme “O Labirinto do Fauno”, o cenário é a Espanha pós Segunda Guerral Mundial. A Espanha governada por Franco. Uma garotinha e sua mãe vão ao encontro do seu novo lar. A garota aparenta somente tristeza. Com ela, seus vários livros de contos de fada. De repente, o carro quebra e ela aproveita para fugir por um momento, afinal o lugar é belo. Uma floresta ancestral. No seu novo lar, no meio da floresta, ela vai encontra seu padastro.

Ao chegar em sua nova casa, ela encontra um labirinto muito antigo, sendo advertida a não entrar lá. Mas claro, sendo uma criança, isso só aguça a sua curiosidade. A partir daí,  garotinha encontra todo tipo de figura surreal. Fadas, um fauno, monstros. Enquanto que no mundo real, os rebeldes contra o governo Franco também encontram os seus próprios monstros, um deles personificado no cruel padastro da garotinha. Ele é comandante das forças fascistas de Franco. Uma figura dura, um militar enviado para lá para acabar com os maquis, rebeldes que atuavam desde antes 1939.

Ela está sozinha no meio de uma guerra, com uma mãe frágil que é totalmente submissa ao padastro, sem forças o bastante para se rebelar contra aquele a quem a mãe insiste que ela chame de pai.

O filme nos traz estranhas figuras, conhecidas de nós, mas todas com toques sombrios. O fauno, surge das sombras, propondo provas a ela para que ela consiga voltar “ao seu reino”. É extremamente desconfortante vê-lo devorar um pedaço de carne crua e ficar imaginando de que seria aquela carbe. As fadas deveriam ser figuras fofinhas, mas aqui elas são estranhas, e também abocanham carne crua… Mas afinal, os contos de fadas originais eram sombrios, lidos ao redor de fogueiras, e com certeza naqueles

Não há como desconfiar da figura do fauno e tentar imaginar se ele realmente tem boas intenções com a menina. Afinal, essas criaturas são conhecidas por enganar os humanos. Mas ela não se importa, porque no meio dos adultos, são somente essas criaturas que estão lá, para ouví-la e a consolar.

Será que eles existem? Seriam frutos da imaginação dela? O filme jamais responde. Você vai tentar adivinhar, mas não vai conseguir. Aqui a ilusão e a realidade se misturam em meio a acontecimentos. E você percebe que os homens é que são os verdadeiros monstros dessas estória.

Coisas típicas dos contos estão lá, a heroína que precisa fazer uma busca para atingir determinado objetivo, muitas vezes a custa de muito sacríficio. Figuras arquetípicas: uma floresta sombria e encantada, o sapo, o vilão, fadas e faunos.

No desfecho do filme, se fica pensando se realmente ela conseguiu o que queria e finalmente chegou ao seu reino encantado.

Notas:

1) O sapo é símbolo de transformação e fertilidade em muitas culturas, e também um símbolo o incosciente. Interessante notar que em uma das missões da menina ela encontra um sapo gigante, talvez uma pista de que a partir daí ela está mergulhada no seu próprio inconsciente e que a partir daí ela sofrerá uma transformação em seu destino.

2) O fauno era deus de chifres da antiga religião romana, que habitava as florestas, campos e planícies, quando ele fertilizava o gado era chamado Inuus. Em literatura ela acabou sendo associado ao deus grego Pan.

Sendo uma das mais antigas divindades romanas, conhecidas como di indigetes, e revelava o futuro em sonhos e vozes para aqueles que dormiam nos locais sagrados dos faunos.

3) O labirinto é símbolo da busca por sabedoria e também do inconsciente. Muitos são atraídos pelo labirinto como uma meio de alcançar auto conhecimento e criatividade, pois ele é um desafio a ser enfrentado para alcançar uma evolução. Caminhar no labirinto clareia a mente. Para os que sofrem, traz alívio e paz.

4) A guerrilha anti Franco começou antes de 1939 no fim da Guerra Civil Espanhola. O coneço da Segunda Guerra Mundial logo após a guerra civil surpreendeu grande parte da Espanha Republicana exilada na França; muitos deles se juntaram à Resistência Francesa. Por volta de 1944, com as forças alemãs em retirada, muitos dos guerrilheiros, voltaram seus focos para a Espanha. Apesar do fracasso da invasão de Val d’Arán naquele ano, alguns pelotões continuaram até o interior da Espanha para se juntar a grupos que permaneciam nas montanhas desde 1939.

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O apogeu da guerrilha foi entre 1945 and 1947. Depois disso, a repressão franquista aumentou, e um a um os grupos foram exterminados. Muitos de seus membros morreram ou foram presos. Outros fugiram para a França ou Marrocos. Em 1952, os últimos e mais importantes contingentes saíram da Espanha. Depois disso, aqueles que resistiram nas montanhas recusaram a escolher o exílio ou se render, lutavam apenas por sua própria sobrevivência.

Links:

http://www.bellaonline.com/articles/art13554.asp

http://www.archive.org/details/romanfestivalsof00fowluoft

http://www.experiencefestival.com/meaning_of_dreams_about_labyrinth

http://www.sfgate.com/cgi-bin/article.cgi?f=/c/a/2006/12/29/DDGH7N4LSM22.DTL&type=movies

Gykia, a heroína de Quersonesos

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Sino de Quersonesos foto por Dmitry A. Mottl

Lamachos era um rico morador da cidade de Quersonesos. Era tão rico que seu gado tinha uma porta exclusiva para entrar na cidade. Ele tinha uma filha única, de nome Gykia, ela era a mais linda e inteligente da cidade, tendo o seu pai se esmerado em educá-la com os mais sábios professores.Gykia era uma boa moça e queria de alguma forma ser útil pra a sua cidade.

Entretanto, na província de Bósporo reinava Asandros, que louco de ganância queria a cidade de Quersonesos para si. Ele tinha tentando tomar à força uma vez, só que falhou. Então armou o plano de casar seu filho com Gykia, assim quando Lamacho morresse o filho dele governaria e depois seu neto.

Tudo aconteceu de acordo com a o plano, Gykia casou com o filho de Asandros. Mas havia uma cláusula que dizia que se o marido saísse da cidade para encontrar o pai, seria executado. Gykia amava o marido sinceramente. Ele parecia ser uma boa pessoa, um fiel cidadão e era cheio de boas ações. Só que Lamachos morreu dois anos mais tarde e o Conselho da cidade decidiu entregar o governo não para o seu marido, mas para Zethos, um cidadão de destaque da cidade. O marido não desistiu, e ficou esperando uma oportunidade para tomar o poder.

No aniversário da morte de seu pai, Gykia organizou uma comemoração, regada a muita comida e bebida. O marido dela resolveu usar um dos aniversários de morte do sogro para tomar a cidade. Ele enviou um escravo dedicado a Panticapaion (a capital do reino do Bósforo) com uma mensagem que ele tinha encontrado uma maneira de tomar o controle sobre Quersonesos.

O pai enviou navios a seu filho com guerreiros dentro, como se eles estivessem trazendo presentes para a festa. Os barcos bósforo chegaram na Baía de Símbolos, e o filho de Asandros enviou cavalos para eles. Eles foram a cidade, entregaram os presentes, e alguns ficaram escondidos na casa de Gykia, enquanto os remadores partiam dando a impressão de que eles tinham partido.

Os escravos que o filho de Asandros trouxe de Bósporos o ajudaram, dizendo para todos que eles tinha deixado a cidade e dando comida e água para eles. Tudo foi feito secretamente. Gykia não suspeitava o que estava acontecendo em sua própria casa.

O prazo para o cumprimento do plano era o terceiro aniversário da morte Lamachos. Por dois anos ele reuniu em segredo cerca de duzentos guerreiros de Bósporos. O filho de Asandros supôs que no dia da comemoração todos iriam divertir-se até tarde da noite e ficar totalmente bêbados, e quando dormissem, ele levaria seus guerreiros para realizar seu ato traiçoeiro. Nessa altura, a frota de seu pai estaria pronta para o ataque contra Quersonesos.

A trama foi descoberta por acidente, isso porque uma das servas de Gykia estava de castigo em um aposento, e sem querer deixou cair um grampo, quando foi pegá-lo no chão, ele viu os soldados escondidos no andar de baixo. Imediatamente ele pediu para alguém trazer sua patroa e falou a ela o que estava acontecendo. Gykia não teve dúvidas, o amor pela cidade era maior que qualquer coisa, e decidiu matar a todos, inclusive seu próprio marido, que acabou por ser um traidor.

Ela pediu a seus parentes para reunir os mais valentes cidadãos. Ela fez eles jurarem que se tudo fosse verdade, depois da morte dela, ela deveria ser enterrada dentro d perímetro da cidade. Eles juraram cumprir seu desejo, Gykia satisfeita revelou a traição do marido. Quando eles ouviram a estória, congelaram de medo.

Ela combinou que as comemorações deveriam ocorrer de maneira normal. Todos beberiam, dançariam, cantariam, mas de maneira comedida e sem esquecer o perigo. Deveriam também juntar mato em suas casas. Assim, quando a festa terminasse, os portões seriam fechados e todos iram para suas casas, pegariam os galhos e folhas e iriam a casa dela, colocariam tudo lá e ateariam fogo, assim que ela saísse, é claro. Cuidando para que ninguém mais saísse vivo de lá.

Como havia sido combinado, no dia do memorial de Lamachos , os habitantes da cidade se divertiram durante todo o dia nas ruas. Gykia generosamente distribuiu vinho na festa em sua casa, entreteve seu marido, mas ela mesma não bebeu e ordenou o mesmo de sua servas. Gykia bebia água de uma tigela púrpura que parecia vinho.

Quando a noite chegou, e os cidadãos retornaram a suas casas e Gykia convidou seu marido para dormir. Ele concordou prontamente. Ela ordenou que os portões e entradas fossem fechadas, como de costume, e imediatamente enviou servas de confiança para levar roupas, ouro e decorações diversas para fora da casa.

Tudo ficou silencia na casa e o marido bêbado adormeceu, então Gykia saiu do quarto, fechou a porta atrás de si, e chamando de servas, deixou a casa. Na rua, ela disse que ateassem fogo em cada lado da sua casa. Logo a casa estava envolta em chamas. Os guerreiros bósforos tentaram fugir, mas foram imediatamente mortos. Em um instante todos os conspiradores foram executados.

Desta forma Gykia manteve Quersoneso fora do perigo, os cidadãos ergueram duas estátuas em sua homenagem.

Quando, mais tarde, Gykia lembrou o conselho da cidade sobre a sua promessa de enterrá-la dentro do perímetro da cidade , mas alguns ficaram contra dizendo que a necrópole de Quersonesos estava longe das muralhas da cidade, e eles nunca enterravam os mortos em bairros residenciais. Em vez disso, eles propuseram reconstruir a casa dela, em troca.

Ela não desistiu. Alguns anos mais tarde a sábio Gykia decidiu testar se seus concidadãos se eles iriam manter sua palavra na prática. Ela disse a seus escravos para espalhar a notícia de que ela tinha morrido. Todos ficaram tristes. As pessoas lotaram a praça da casa de Gykia. Seus escravos e parentes prepararam o corpo para o rito fúnebre.

Após uma longa reunião da anciãos eles decidiram não infringir o rito antigo dos gregos, e sim quebrar o juramento, e ordenaram levar o corpo dela para fora da cidade e para enterrá-la na necrópole.

Quando o cortejo parou diante do túmulo aberto, Gykia levantou-se do sarcófago, e começou a acusar os cidadãos amargamente. Os anciãos ficaram envergonhados e juraram pela terceira vez realizar o seu desejo. Ela foi autorizada a encontrar um local de sepultamento dentro da cidade, que foi marcado com um busto em cobre dourado da heroína.

E aqueles que quisessem admirar a beleza dela, poderiam escova o pó do busto de cobre e ler na placa a estória de seu feito corajoso.

Tradução do grego por N. Khrapunov

fonte: http://www.chersonesos.org/?p=history_tls1&l=eng