Arquivo mensal: maio 2010

A Terra Morre e Renasce

Mãe Sol

Há muito tempo atrás, o mundo era completamente escuro e silenciosa; nada se movia em sua superfície estéril. Dentro de sua caverna profunda sob a planície de Nullabor dormia uma bela mulher, o Sol.

O Grande Espírito (1) acordou-a gentilmente e disse a ele para sair de sua caverna e banhar o universo de luz. A Mãe Sol abriu seus olhos e a escuridão desapareceu à medida que seus raios se espalhavam sobre a terra; ela respirou e a atmosfera mudou; o ar vibrou delicadamente quando uma pequena brisa soprou.

A Mãe Sol então começou uma longa jornada; do norte ao sul e do leste ao oeste ela atravessou a terra estéril. O mundo tinha dentro de si a semente de todas as coisas, e à medida que os gentis raios do sol tocavam a terra, brotaram grama, arbustos e árvores, que cresceram até que tudo estava coberto de vegetação.

Em cada uma das profundas cavernas da Terra, o Sol encontrou criaturas vivas, que como ela mesma, estavam adormecida desde tempos imemoriais.

Ela acordou os insetos para a vida em todas as suas formas e disse para eles se espalhar pela grama e árvores, então ela acordou as cobras, lagartos e outros reptéis, e eles deslizaram dos seus esconderijos.

À medida que as cobras se moviam lá e acolá ao longo do mundo eles formaram rios, e eles mesmos se tornaram criadores, como o Sol. Atrás das cobras poderosos rios começaram a correr, repleto de todas as forma de peixes e seres aquáticos. Então ela chamou pelos animais, os marsupiais, e muitas outras criaturas acordaram e fizeram suas casas na terra.

A Mãe Sol então disse que, de tempos em tempos, o tempo mudaria de úmido para seco e de frio para quente, então criou as estações.

Um dia enquanto os animais, insetos e outros criaturas estavam observando, o Sol viaju para longe no oeste e, ficando o céu vermelho, ela desapareceu de vista e a escuridão se espalhou sobre a Terra novamente.

As criaturas se alarmaram e se amontoram de medo. Algum tempo depois, o céu começou a brilhar na horizonte e no leste o Sol levantou sorrindo no céu novamente.

A Mãe Sol proveu assim um perído de descando a todas as criaturas, fazendo essa jornada todo dia.

fonte: http://www.artistwd.com/joyzine/australia/dreaming/earth.php

Nota:

(1) O nome do Grande Espírito (Great Father Spirit, no original) é Baiame. Baiame é nome em Kamilaroi do Criador (de Biai, “criar ou consruir”). Com seu hálito, ele esfriou a Terra, criando a Serpente do Arco-Íris. Criando todos as coisas, inclusive os animais, e o primeiro homem e mulher.

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As crianças golfinho

Brincando no mar

Brincando no mar

O dia estava tão quente que todos estavam desanimados e as atividades diárias se tornaram praticamente impossível. Então a tribo decidiu sair do campo e ir para a costa. Sua jornada seria difícil tanto para as crianças quanto para idosos, mas os filhos mais velhos viram tudo como uma aventura emocionante.  Eles acharam que era uma oportunidade para aproveitar ao máximo. Por causa da empolgação, logo eles foram alertados a permanecer perto.

Finalmente, quando o sol desapareceu sob a terra, eles chegaram ao mar e acamparam perto de uma fonte de água doce. Começaram a encher os recipientes de água e preparar uma refeição antes de parar para um merecido descanso.

No entanto, três dos filhos mais velhos estavam faltando. Assim que a tribou notou o desaparecimento, foi organizado um grupo de busca antes que ficasse muito escuro para encontrá-los.  Os homens descobriram os rastros deles e descobriram que tinham ido explorar por conta própria sem permissão de seus pais, e isso era imperdoável, porque eles sabiam que era proibido e perigoso.

A trilha os levou a uma saliência rochosa e terminou abruptamente. Os homens esperavam vê-los, quer na parte rasa ou mesmo nadando.  Mas não havia local para pisar. A borda era de pura rocha cercada de águas profundas. Então onde estavam as crianças?

Assim como as pessoas que chegaram à costa, as três crianças correram para a saliência rochosa olhando com admiração o mar pela primeira vez. Mas para eles não era nada mais do que uma lagoa grande, então eles fizeram o que sempre fez em um dia quente, simplesmente pularam nele.

Ao boiar na água, eles perceberam que estavam em apuros porque a corrente provocada pelas ondas batendo nas rochas começou a levá-los para longe  no mar, e os seus pedidos de ajuda foram em vão.

Então Boomali, um espírito do mar veio em seu auxílio. Sabia que as crianças trouxeram aquele perigo sobre eles próprios, ignorando deliberadamente tudo o que tinha sido ensinado, somente porque queria se divertir, então que assim seja.

Ele os transformou em golfinhos, condenados a brincar no mar para o resto de suas vidas sem ver seus entes queridos novamente.

Notas:

1) Uma das poucas menções ao clã Burramadagal foi no site 2nd International Mush Conference, que fala sobre arte aborígene australiana, C. Dan Purches (nome tribal Naiura), conta que aprendeu arte com sua mãe e sua avó materna era membro do clã Burramadagal, da tribo Dharrug.

2) No site,  History of Penrith South Public School, é mencionado que a tribo vivia nas cercanias de Sidney.

Fonte:

http://www.artistwd.com/joyzine/australia/dreaming/dolphin_children.php

Links:

http://www.angelfire.com/nt/winternats/bound.html

O vôo

Indo Para o Outro Mundo

Hoje só um post rápido, talvez eu chegue a escrever mais sobre isso. Como estive surfando na net, acabei dando de cara com “O Paciente Inglês”. Talvez alguns já tenham visto o filme.

É uma estória que se passa na Segunda Guerra, homem totalmente desfigurado por queimaduras vai para em um hospital dos Aliados. Como ninguém descobre o nome dele, anotam na ficha médica que ele é o “paciente inglês” . O pelotão atravessa a Itália rumo a algum lugar, que não me lembro agora e o paciente é obrigado a ficar em um mosteiro abandonado junto com uma enfermeira canadense, Hanna. Isso porquê ele está doente demais para continuar a viagem.

Hanna e Kip

O caminho desse dois se cruzam com o de um ladrão, Caravaggio, e um sikh, de nome Kip. Enquanto no mosteiro, o paciente começa a contar sua estória em flashback, a estória de como ele se apaixonou e de como essa paixão se tornou sua perdição e a dela. Paralelo a isso, Hanna se apaixona por Kip.

Mas já contei muito do filme e talvez alguém queira ver ou ler o livro. Bem, mas o quero contar é de como a cena final do filme me emocionou e até hoje me faz lembrar de uma crença arquetípica.

No final, o paciente morre e tem uma visão final, uma lembrança na verdade, onde ele recorda que carregara Katherine morta em seus braços até o avião. Então vemos eles partindo para um vôo sobre o deserto. O avião plana mansamente para uma viagem que parece que não terá fim.

O Paciente Inglês carregando sua amada

Interpretei essa cena como uma metáfora da morte, e o avião representaria o mensageiro, aquele que carrega a alma dos mortos para o outro mundo. No lugar de um passáro que levaria a alma, temos um avião que o leva junto com sua amada para Outro Mundo.

Os passáros são creditados como mensageiros do outro plano, o que implica que eles também tem poder para transportar a alma dos mortos em sua jornada desse para o mundo espiritual.

Alguns acreditam que a alma migra de um corpo para outro e que muitas vezes um humano pode ter habitado anteriormente o corpo de uma passáro. Além disso, alguns acreditam que eles trazem algum tipo de presságio e muitas vezes, um mau presságio.

Gaivota do Pacífico

Gaivota do Pacífico

Um exemplo desse mau presságio seria o pio do passáro chamado storm petrel ( Hydrobates pelagicus ). Segundo a wikipedia, é chamada de “painho“, mas também somente de petrel. No original em inglês, ele é chamado de petrel da tempestade, porque os marinheiros acreditavam que ver um deles significava um sinal de grande tempestade se aproximando uma espécie.  Atirar num deles daria azar. Alguns também acreditavam que não deveriam ser feridos porque dentro deles estaria a alma de marinheiros mortos.

Assim também aconteceria com as gaivotas, que seriam sinal de tempestade e seus gritos seria sinal de que alguma desgraça iria acontecer e que almas de marinheiros e pescadores habitariam o corpo das gaivotas, especialmente se um deles tivesse morrido afogado.

Isso me lembra um quadrinhos do Hellboy. O quadrinhos “Hellboy – Paragens Exóticas”, mostra o personagem no fundo do mar. Ele encontra com diversos personagens, mas logo no começo da estória ele luta com uma bruxa do mar e consegue libertar a alma de marinheiros que serviam de fonte de poder para ela. Se não em engano, estavam presas em ânforas (tenho de rever o quadrinho…). De qualquer forma, após as almas serem libertadas do feitiço, elas voam para a liberdade em forma de passáro… Interessante referência à crença de que os passáros “retém” almas dos mortos.

Outras passáros também seriam hospedeiros de almas como acreditam os pescadores de uma região da Inglaterra, chamada East Anglian. Para eles, o ganso patola ( Morus bassanus ) é um deles.

Nos Estados Unidos, dizem que um homem atirou em três patos e quando foi procurar os corpos não os encontrou. Após isso uma cotovia piou por três dias. Quando ela parou, ele foi ao pântano e encontrou o corpo de três marinheiros.

Enquanto isso, na Europa os corvos sempre foram mensageiros de mau presságio. Alguns diziam que eles eram bispos maléficos que ao morrer, viravam corvos (porque usavam vestimentas pretas). Ouvir um pio de corvo significava que algo ruim iria acontecer. Almas de crianças não batizadas também poderiam virar corvos.

Outras lendas conectam o corvo com o Rei Artur. Alguns dizem que o rei foi transportado para Avalon. Outros que ele dorme em uma caverna em algum lugar da Grã Bretanha. Mas o escritor espanhol Julian del Castillo deu outra explicação, que foi logo assimilada pelos ingleses, a de que Artur foi encantando em um corvo, e que um dia reinará de novo e para provar isso, ele diz: será que algum inglês matou um corvo depois disso?

Torre de Londres

Até o século 18 matar um corvo era um tabu na Inglaterra. A idéia do corvo associada ao rei parece explicar porque sempre são mantidos seis corvos na Torre de Londres.

Os corvos são uma espécie de protetores da Inglaterra, porque são associados ao rei Artur. Imagine o desespero que tomou conta da Inglaterra quando, durante a Segunda Guerra mundial, os corvos ficaram em silêncio durante cinco dias? Muitos imaginariam que a Grã Bretanha iria desaparecer.

Referências:

http://www.mythencyclopedia.com/Be-Ca/Birds-in-Mythology.html

http://www.deathreference.com/Sh-Sy/Soul-Birds.html