Como a garça azul trouxe a maré

A Great Blue Heron (Ardea herodias) taken in Santa Barbara by Dori

Era a época de recolher os ovos dos gansos que estiveram nidificando no pântano. Quando Muradja, o chefe, acendeu um fogo e fez sinais fumaça na planície, centenas de homens, mulheres e crianças encheram rápido o território de caça. Todos adoravam a coleta de ovos de ganso, pois eles sabiam que em breve teriam as barrigas cheias e um suprimento de ovos para negociar com tribos mais distantes.

Jarras* e sacos transbordariam quando a coleta chegasse ao fim, e todas as manhãs e à noite, as fogueiras enviariam altas colunas de fumaça no ar tranquilo. O cheiro dos cozidos fariam suas narinas tremer, e após a festa haveriam jogos, canções e danças, enquanto os mais velhos nos seus solenes conselhos  olhariam tolerantemente a arruaça dos jovens.

E assim, como tinha acontecido mais vezes do que a memória dos anciãos poderiam recordar, os gansos proveriam alimentos e prosperidade para as tribos, e Muradja estava satisfeito com a coleta de ovos. Os ovos foram examinados cuidadosamente cada noite, enquanto os mais velhos se debatiam se os pintos estavam se formando. Isso seria um sinal de que a época da postura de ovos estava chegando ao fim, o momento em que as crianças e os jovens seriam advertidos de que eles não deveriam comer mais. Depois que os ovos seriam reservados para os mais velhos.

‘Este é o dia, “Muradja anunciou enfim. ‘Vocês se alimentaram bem, como eu posso ver a partir de suas lustroso barrigas. Em breve iremos retornar ao nosso próprio território de caça. Vocês podem levar o seu suprimento excedente para negociar, mas não deverão mais comer os ovos de ganso. Vocês irão encontrar apenas alguns restantes no ninho. Traga-os para o conselho e vão em paz.

Naquela noite Windjedda, o filho de Muradja, discutiu com seu pai. Ele era um jovem atrevido, estragado pela demasiada atenção das mulheres. Ele ainda não era um homem, pois a sua iniciação nas fileiras dos homens ainda esperava no futuro.

“Porquê?”, Perguntou ao pai. “Porque não devemos comer os ovos remanescentes?”

“Se nós comermos todos eles não haveria gansos no próximo ano, o que significaria nenhum ovo”, Muradja respondeu gentilmente.

“Mas vocês podem comê-los, você e os anciãos”.

“É um privilégio que os anos trouxeram para nós, meu filho. Algum dia você pode será o líder da coleta de ovos, e será o seu privilégio também.”

“Não vejo por que eu não deveria pegá-los agora. Não tem importância se mais ninguém sabe. Minha barriga ainda não está cheia.”

“Você é um rapaz tolo, “censurou o pai.”Quando você estiver pronto para o seu teste você irá aprender que o apetite é a primeira coisa que você deve controlar. Se você não puder faze-lo você nunca vai saber controlar a dor e o medo, e até chegar essa hora, você não será um homem. ”

“Eu não temo a dor,” Windjedda bradou.

“Vamos pôr isso à prova agora,” o seu pai disse calmamente, “a menos que você pare de falar e deixe-me dormir. Eu disse que você era um menino tolo, e cada palavra que você fala confirma o meu pensamento. Se você comeu mais algum ovo após a proibição do conselho, eles vão virar veneno na sua barriga e você ia morrer.”

Windjedda sabia que ele tinha ido longe o suficiente. Ele deitou-se perto do fogo, mas diante das centelhas cintilantes ele deu um largo sorriso ao pensar que seu pai esperava que ele acreditasse nessa besteira. Ele sabia que era apenas estórias de velhos, feitas para que pudessem comer tanto quanto desejassem. Fazendo planos para despistá-los, ele adormeceu ainda com o sorriso em seu rosto.

Na manhã seguinte, quando os homens tinham saído para caçar *cangurus wallabies, ou para pescar, ele saiu do capinzal do pântano onde tinha sido escondido. Olhando em volta para ver que ele não foi observado, ele se dirigiu para a fogueira onde uma anciã estava cozinhando ovos para o conselho.

“Dêem-me um dos ovos,” Windjedda exigiu. A velha mulher olhou para ele em espanto.

“Você ouviu o que o teu pai disse ontem, Windjedda. Não existem mais ovos para você, ou eu, ou qualquer pessoa, exceto os mais idosos”.

“Dêem-me aquele”, ele repetiu, apontando para o maior ovo. “Estou com fome. Ninguém vai saber.”

A velha mulher brandiu seu pau para ele. “Você é um garoto ruim. Não vou deixar você quebrar nossos costumes tribais.”

Windjedda pegou um ovo fresco e quebrou na própria cabeça. Com o conteúdo do ovo correndo em seu rosto, ele apressou-se para a praia onde Muradja estava caçando peixes com sua lança e chorou,

“Vejam o que a velha fez para mim! Você permitir que isso aconteça ao seu filho?”.

O chefe estava indignado com o insulto feito a seu filho. Se ele tivesse pensado um pouco sobre o assunto teria percebido que Windjedda não era confiável. Nesse caso, ele teria convocado uma reunião do conselho, e a verdade teria sido descoberta. O ódio distorce o julgamento de um homem, e assim foi com Muradja.

Balbuciando feitiços, ele correu até a praia, atravessando o ar com sua lança, seguido de perto por um Windjedda cheio de prazer. A seus pés a maré borbulhava e corria ao longo da areia. Não parou na marca da maré alta. Espalhou-se sobre toda a terra seca, circundou os morros, transformando-os em ilhas, e correu através do matagal em direção ao grande acampamento. As fogueiras evaporaram momentaneamente, até que foram extintas pelas águas do dilúvio.

As mulheres e as crianças correram para uma grande árvore banyan e subiram, mas a água subiu até que a árvore foi coberta, e eles foram levados e se afogaram. Os pescadores e caçadores encontraram o mesmo destino. Apenas Muradja e Windjedda escaparam. Eles foram transformados em garças azuis, as aves que correm até o a maré alta nas margens do Mar de Timor até os dias de hoje.

A.W. Reed, Aboriginal Fables and Legendary Tales

Notas:

* Na verdade o nome uso foi wallaby, que seria não um canguru, mas uma outra espécie da mesma família. Mas nesse caso, achei que mesmo errado, o uso do termo canguru seria mais adequado. Ele seria menor do que o walaru eo canguru.

* Quanto ao uso do termo jarra, no momento não achei nada que explicasse melhor, pois a figura me pareceu uma jarra de madeira.

fonte: http://www.artistwd.com/joyzine/australia/dreaming/blue_heron.php

Sobre shironaya

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Publicado em junho 2, 2009, em austrália, contos, lendas e marcado como , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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