O Cisne Negro

Quando Wurruna retornou à sua tribo depois de uma jornada trouxe consigo armas nunca vistas antes pelo homem. Disse ele que as elas foram feitas numa terra onde há apenas mulheres e as armas foram dadas em troca de sua esteira de pele de gambá. Então as mulheres disseram:  “Vá! Nos traga mais esteiras e nós lhe daremos mais armas!”

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Cisne negro

As pessoas da tribo ficaram maravilhadas com as armas e concordaram em ir com ele à distante terra de mulheres em sua próxima expedição para Oobi Oobi, a montanha sagrada, levando esteiras com o propósito de troca cerimonial.

Mas Wurrunna advertiu seus companheiros antes de partir, pois havia perigos desconhecidos nessa planície. Eles estava certo de que as mulheres eram espíritos. Elas haviam dito para ele que não havia morte naquela terra, nem havia noite porque o sol lá brilhava sempre.

Wurrunna os avisou que ele daria a volta pelo outro lado da planície e faria um outro fogo para purificá-los assim que eles chegassem. Dessa maneira, nenhum mal se “agarraria” a eles e seria transportado de volta para a tribo. No caso deles demorarem demais, ele tinha um plano para avisá-los que era hora de sair.

Ele iria levar seus dois irmãos com ele.  Sendo ele um grande um grande curandeiro ou homem sábio, ele tinha planos de transformá-los em duas grandes aves aquáticas, e assim que ele acendesse o fogo ele enviaria seus irmãos até o lado oposto do acampamento. A idéia era que as mulheres ficariam maravilhadas e esqueceriam os invasores, que iriam para a planície e pegariam o que eles queriam.

Ele instruiu que cada homem levasse um anima e se as mulheres interferissem, eles o soltariam. Como não havia animais na planície, a atenção das mulheres seria desviada novamente. Em seguida, os homens deveriam se apressar para escapar de volta para a escuridão, onde as mulheres não os seguiriaj, pois elas teriam medo, acostumadas que estavam a sua terra onde sempre havia luz.

Cada homem encontrou um animal, e eles se foram. Entre eles haviam gambás, gatos nativos, esquilos voadores, vários tipos de ratos e por aí vai. Quando eles chegaram na escuridão, que estava enrolada na borda da planície, eles acamparam.

Wurrunna e seus dois irmãos correram através do matagal, rodeando a planície até atingirem o outro lado. Em seguida, Wurrunna acendeu o fogo, produzindo uma grande gubbera, ou pedra de cristal, de dentro do próprio fogo e dirigindo-se aos seus dois irmãos, cantarolou uma espécie de canção sobre eles.

Logo eles gritaram “Biboh! Biboh!” se transformando lentamente em grandes aves puras e brancas, que os nativos chamam de baiamul, os cisnes.

Os homens do outro lado da planície, havendo aceso o fogo, estavam se purificando. As mulheres viram a fumaça subindo em espiral e correram em direção a ela, armadas com lanças, gritando “Wi-bulloo! Wi-bulloo!”

Uma delas deu um grito de surpresa e as outras olharam ao redor. Lá no lago elas viram duas enormes aves brancas nadando. A fumaça foi esquecida e elas correram em direção às duas novas maravilhas e os homens aproveitaram para ir para o acampamento roubar as armas.

As mulheres os viram e deixando os cisnes de lado, correram furiosamente em direção a eles. Então cada homem soltou o animal que tinha. Lá longe na planície correram os gambás, marsupiais, bukkandis e outros. Gritando, elas foram perseguir os animais. Os homens pegaram seus tapetes de gambá e os encheram de armas, então Wurruna começou o sinal de fumaça, que subia em espiral.

Assim que pegaram um dos animais, as mulheres lembraram dos homens e os viram eles deixando o acampamento carregados de armas. Urrando de raiva, elas os perseguiram, mas já era tarde. Os homens já tinham alcançado a escuridão, onde eles se purificaram de todo o mal da planície com o fogo de Wurrunna.

As mulheres chegaram perto até que viram fumaça e, em seguida, lamentaram de novo, “Wi-bulloo! Wi-bulloo!”.  Elas tinham medo de um incêndio, tanto quanto temiam o escuro, tão desconhecido que era em suas terras. Falhando em recuperar as suas armas, elas retornaram até onde tinham visto as estranhas aves.  Mas elas tinham ido embora.

As mulheres ficaram tão zangadas que começaram a discutir, e da discussão passaram a se agredir com golpes. O sangue delas corria rápido, e tingiu todo o céu oeste onde estavam suas terras.  Desde então, quando as tribos vêem um pôr-do-sol vermelho costumam dizer, “Olhe para o sangue das Wi-bulloos; elas devem ter começado a brigar de novo.”

Enquanto isso, os homens retornaram para sua terra com as armas, e Wurrunna viajou sozinho em direção à montanha sagrada, que ficava ao nordeste das terras das Wi-bulloo. Ele esqueceu dos seus irmãos, mas eles voaram atrás dele, chorando para atrair a sua atenção, assim ele poderia transformá-los em homens novamente. Porém Wurrunna, ao subir a montanha, pisou  nas pegadas de Baiame que ficaram esculpidas na montanha, quando este desceu à Terra e isto era um sacrilégio.

Os cisnes, cansados de voar, pararam em uma pequena lagoa no sopé da montanha. As águias, os mensageiros dos espíritos, que estavam voando para entregar uma mensagem divina, viram dois estranhos pássaros brancos em sua lagoa. Em sua ira eles mergulharam e fincaram as suas enormes garras nos cisnes, voando com suas presas para longe do montanha sagrada, sobre as planícies e cadeias de montanhas, longe ao sul.

De vez em quando, na sua fúria selvagem, eles paravam para arrancar um punhado das penas brancas dos cisnes, que eram da mesma cor branca das cinzas da madeira de gidya. Estas penas flutuaram para os lados da montanha, caindo entre as rochas, o sangue escorrendo delas.

As águias voaram e voaram até que chegaram a uma enorme lagoa próxima da grande água salgada. Em uma extremidade da lagoa haviam rochas e sobre  elas jogaram os cisnes. Então mergulharam e selvagemente começaram a arrancar as poucas penas que ainda restavam nas aves. Mas assim que eles estavam retirando as últimas penas nas asas, elas se lembraram que não tinham entregue a mensagem dos espíritos, e por isso, temendo a sua raiva, as águias deixaram os cisnes e voaram de volta para a sua terra.

Os pobres irmãos Baiamul se arrastaram, miseráveis, quase depenados, sangrando e com frio. Eles sentiram que iriam morrer longe da tribo.

Dos céus então caiu uma chuva de penas negras como a noite, que cobriu os seus corpos trêmulos. Aquecidos, eles olharam em volta. No alto das árvores  viram centenas de corvos da montanha, como às vezes eles tinham visto nas planícies de sua terra. Ele pensaram que se tratava de um mau presságio.

Mas os corvos lhes disseram: “As águias são nossas inimigas também. Vimos que elas deixaram vocês  para morrer. Dissemos que não deveria ser assim. Pela brisa enviamos algumas das nossas penas para aquecer vocês e torná-los fortes para retornar para seus amigos, e assim riremos das águias”.

As penas pretas cobriram os dois cisnes, menos nas suas asas, onde algumas plumas brancas haviam sido deixadas. Também debaixo das penas pretas haviam plumas brancas. E o sangue vermelho ficou nos seus bicos para sempre.

As penas brancas dos cisnes que águias haviam arrancado  enquanto cruzavam as montanhas acabaram por criar raízes onde caíram, e se espalharam pelas encostas como sedosas flores brancas que nós chamamos de flores flannel.

Baiamul, os cisnes, sobrevoaram o acampamento de sua tribo. Wurrunna ouviu seu lamento: “Biboh! Biboh!” e sabia que eram as vozes de seus irmãos, no entanto, olhando para cima, ele não viu dois pássaros brancos, mas negros com bicos vermelhos.

Ele ficou pesaroso com o choro triste deles, mas Wurrunna não tinha mais poder para transformá-los em homens. Seu poder como feiticeiro lhe tinha sido tomado por ousar ir antes do seu devido tempo ao acampamento de Baiame nos Céus.

K Langloh Parker, Australian Legendary Tales

Glossário:

1. Baiame

Deus ancestral da Criação para várias culturas aborígenes australianas. Ele desceu para a terra, criou rios, florestas, mares. Deu regras de vida, cultura, tradição e canções para o homem.  Também criou o rito de iniciação Bora, que os meninos devem cumprir para tornar-se adultos.

Quando ele terminou sua criação, retornou aos Céus,  e o povo o chama de Herói dos Céus ou O Todo Poderoso.

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2. Daens

Termo utilizado pelos aborígenes australianos para se auto definirem.

3. Gubbera

Pedra de cristal, pedras primordias do nordeste da Austrália usada para propósitos mágicos.

4. Gidya, gidyea ou  Gidgee

Uma pequena árvore australiana do gênero das acácias, Acácia cambagei, que emite um odor desagradável quando a chuva se aproxima.

http://www.cse.unsw.edu.au/~gernot/persona/hobbies/macquarie.html

5. fumaça – smoke

Ritual de “limpeza”, purificação feito com fumaça para purificar um lugar ou pessoa, principalmente após a morte de alguém.

Um ritual para purificar pessoa ou lugar, especialmente após a morte de alguém, com o uso de fumaça.

Sobre shironaya

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Publicado em maio 7, 2009, em austrália, contos, lendas e marcado como , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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